domingo, 21 de outubro de 2007

"Quero nunca renunciar à liberdade deliciosa de me enganar"

Essa é a frase que me fez colocar uns óculos, esses dias. Para não me sentir a única com duas garrafas nos olhos - o que parece um tanto ridículo - resolvi iniciar o blog e pedir para que todo mundo tire daquela frase um pouquinho de delícia. Pois, então...bem-vindos às lentes.
É moda dizer que se tem os pés no chão. Pelo menos é o que eu ouço muito por aí! Realismo de forma - por que não - brutal em todos e em tudo. Tudo bem que manter os pezinhos bem apoiados não faz mal a ninguém...muito pelo contrário! Mas achar que, para isso, é necessário que todo o resto do corpo seja de pedra e cal, é demais. É preciso um pouco de auto-enganação, ora.
Quando um tal falou em se enganar quis dizer utopia, só que em palavras mais simples. É, utopia mesmo. Não apenas aquela que nos faz sonhar com o futuro ou almejar isso, aquilo, aquele. As minhas lentes garrafais traduzem essa utopia como aquela que também nos faz acreditar. E não...por favor, não pensem que isso se resume à religião - estaríamos, então, excluindo os ateus de qualquer enganação.
A utopia de que falo aqui é uma tal que nos faz conservar a infância, pegando carona com ela, certas vezes. Sabe aquele brilho que criança põe em tudo o que vê? Presumo que muitos crescidinhos ficam sem estoque de brilho depois que descobrem que Papai Noel é pura imaginação. Cuidando para não usar demais e ofuscar a realidade, todos precisam de um pouco dessa luz nos olhos, sim, caso as lentes não prestem. A auto-enganação pode ser a única forma de a gente ver o mundo com alguns políticos de boa fé e pessoas altruístas de verdade. E não digo aqui com ironia!
Fico realmente exausta quando vejo gente que adora espalhar teorias desmitifcadoras por tudo quanto é lado.
Agora, tirando os olhos do lado político-social e viajando pra algo mais infantil, mas não menos importante: os desenhos animados. Quem nunca ouviu falar que os smurfs eram, na verdade, chapadinhos, assim como o Salsicha, amigo do Scooby? Há também quem diga que o Popeye foi só uma estratégia do governo norte-americano e que a Olívia estava a ponto de morrer por distúrbio alimentar. Ai, ai...que "conspiratólogos" mais chatos.
Tá. Eu sei que El Che não foi tão longe quanto quis ser livre para se enganar - até porque ele não teve acesso às contemporâneas teorias desmancha-prazeres - mas o princípio de que tudo precisa de um brilho, uma utopia que transcende o realismo bruto, isso sim se leva. Ponto. Pego carona com o comunista sonhador e digo: me recuso a perder a liberdade de dizer que os smurfs eram belos anõezinhos azuis e que o Salsicha era apenas um investigador com um medo infantil! E que os teóricos apocalípticos sirvam-se de lentes mais cintilantes.


sábado, 20 de outubro de 2007