terça-feira, 13 de outubro de 2009

A resposta da natureza



Colocar o lixo dentro da lata disponibilizada para tal; eis uma ação de extrema complexidade. Após comer aquele chocolate, tudo o que sobra - além da vontade de comer mais um – é o papel na sua mão. Você olha para os lados e nada: nem sinal de um coletor na rua. Você caminha mais uma ou duas quadras e continua com o papel. O que você faz? Chão. Afinal, amanhã ou depois aquele lixinho vai ser recolhido por um funcionário da limpeza. Ou por alguém como eu, que vem passando logo atrás - e não suporta falta de educação.

Canso de ver essa cena. E não adianta: não aprendi a não me incomodar com a irresponsabilidade ambiental alheia. Ok, não vou aqui fazer mais um discurso sobre como é feio maltratar a natureza, coisa e tal. Sei que em tempos de aquecimento chovem especialistas moralistas. Não serei mais uma – até porque não sou habilitada a representar nenhuma ciência, a não ser a da consciência.

Portanto, sem querer dizer o que se deve ou não fazer, vou me limitar a dizer o que me irrita e a pedir encarecidamente que considerem isso um apelo: reciclem-se, pessoal! Realmente me irrita a indiferença em relação ao mundo - que é nosso e, indiscutivelmente, está estranho. Se alguém não entender do que estou falando, olhe a imagem, captada pelo colega Carlos Queiroz no último dia 5 por volta das 14h. Se por algum motivo você não pôde presenciar a sensação de eclipse vivida naquela tarde, não tem problema; ainda terá oportunidade. Cenas como aquela se tornarão cada vez mais comuns.

Uma noite em plena escuridão do dia. Pode parecer poético, mas não: é quase um filme de terror, do qual somos protagonistas. Ou vilões? Não sei. Só o que posso afirmar é que não se trata de ficção científica. A revolução climática agora é realidade em nossas vidas e é a ela que temos que nos adaptar. Não falo de uma adaptação passiva, de se acostumar com o dia-noite ou com o inverno-verão, saindo de casa roupas que vão da manga cavada ao mais grosso casaco. Mas convoco a todos para uma adaptação ativa, consciente, inteligente.

A revolução foi declarada, isso já é fato sem volta. É a resposta da natureza. Mas ainda há tempo de dizer a ela que estamos arrependidos; que apesar de terem nos ensinado a explorar, agora queremos preservar; que vamos mudar nem que seja alguns milímetros desse rumo escuro que foi traçado. E para isso, acredite, basta começar guardando o papel do chocolate até a próxima lixeira.

terça-feira, 25 de novembro de 2008


Créditos do filme:

São momentos raros, admito. No entanto, sublimes. Falo das vezes em que, em meio ao corre-corre, paro o meu relógio e penso: a vida não passa de um filme. Nós fazemos parte do elenco de “atores-espectadores”. Ora, será que ninguém notou?

Como em toda boa trama, tem de haver muita peleia antes de a felicidade ser servida em uma bandeja lustrosa. A justificativa é de que isso ajuda a prender a atenção e o sentimento dos espectadores – neste caso, nós, que assumimos o duplo papel. E não é que é mesmo? Não há como negar: as marcas deixadas pelas árduas batalhas deixam a bandeja da felicidade mil vezes mais bonita! E como é bom.

Mas, como no cinema, uma luta nunca é travada por um homem só. Há um exército de forças. E são essas forças – pode acreditar – o grande sentido de tudo. É por esse exército que, no fim, valeram a pena as cicatrizes de batalha. E é a eles que, também no fim, são dedicadas as minhas medalhas.

À minha força maior dedico a primeira medalha de guerra. A barriga que me segurou, quando a maioria acreditava ser impossível; as mãos que me levaram para aprender os passos, quando eu insistia em cair de bumbum no chão; a paciência que me ensinou a ser alguém, quando eu nem sabia quem era eu; o amor incondicional, quando só isso era capaz de me deixar em pé. Por isso, mãe, o que trilhei e o que ainda vou trilhar são conquistas tão minhas quanto tuas.

Aos meus arco-íris, a segunda medalha – e, esta, bem colorida. O agarradinho pendurado, me convidando para deixar o mau-humor na porta, antes de entrar; o sorrisão fascinante, me lembrando que essa sempre vai ser a melhor forma de viver; a bagunça e a barulheira, dando ao meu filme textura e trilha sonora peculiares; negrinhos, panela para raspar e bilhete de amor, para me mostrar o quanto sou feliz. Às minhas pequenas princesas, digo o seguinte: ainda bem que vocês existem!

Ao meu par, então, dedico a próxima. A companheira de barraquinha, onde batemos o recorde de encontrar a diversão em um lugar de apenas 1m²; minha dupla de brincadeiras e covers da Xuxa e das Chiquititas, em um tempo em que a realidade era um sonho; minha unha e minha carne em cada tombo, em cada desilusão, em cada decepção; minha outra metade na vida, quando o que mais se precisava era de alguém que sentisse cada detalhe, compartilhasse de mãos dadas as mesmas dores e alegrias. Manu, poucas coisas na vida são tão certas quanto isso: somos um par ligado eternamente. Te amo até o fim.

Aos meus mestres veteranos de guerra - meus cuca branca -, também faço homenagem. Suas histórias de vida e seus olhares de ternura são gestos que vou levar comigo para onde eu for. Sempre.

Aos tios e às primas da Serra, também deixo meu carinho aqui expresso. Amo-os demais. A minha infância e a minha transformação em “gente grande” não teriam sido tão maravilhosas sem vocês.

Aos dindos e primos que, por hora, se encontram distantes, também o meu muito obrigado. Agradeço o carinho, a palavra amiga, o abraço confortável, a expressão angelical da Isa, que me lembra o quão doce a vida pode ser.

Além dos combatentes que nos acompanham desde o início, há aqueles que conhecemos pelo caminho. E como valem a pena esses encontros inesperados! Ainda mais quando se trata de pessoas que parecem ter nascido para nos encontrar. Então, pela sintonia telepática que me faz sentir em casa e saber que nunca estou só, obrigado, Carol.

Outros encontros preciosos aconteceram já na vida acadêmica. A faculdade não teria o mesmo gosto e o mesmo valor se não fosse a amizade dos mestres Antônio Heberlê e André Lapuente. Tio Toni, obrigado pela paciência e pelo ombro, sempre disponível pra mim. André, obrigado por ter sido amigo, professor e pai, em alguns momentos. Esse é o tipo de coisa que fica marcada a ferro na gente.

Também encontrei companheiros de batalha lá longe, fora da zona urbana. Na Embrapa, minhas idas e vindas me fizeram somar mais do que conhecimento. Somei o mais importante: pessoas. Meus queridos Rui Madruga e Sérgio Silva, obrigado. Os valores profissionais e, principalmente, humanos que me passaram vão me acompanhar em cada pedaço de terra onde eu pisar.

Por fim, à minha estrela-guia, dedico mais do que medalhas. Dedico o meu existir. A minha lágrima, o meu sorriso, os meus instantes. Cada um deles. O teu amor é o que move minha vida desde os primeiros suspiros.

No meu filme envolvente, o fim desta cena me faz compreender uma coisa: tenho gente de verdade comigo. Antes do diploma, conquistei corações. Essa, sim, é a minha maior vitória. Afinal, do que mais a gente precisa? Ah, de um balde de pipoca, é claro! Agora é hora de assistir à próxima cena...

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Não dá bola: é mais um texto sobre amigos

" Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final...
Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. [...]
Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. [...] Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam o seu amor. Pare de ligar a televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais. [...]
Feche a porta, mude o disco, limpe a casa... "

Essas palavras não foram retiradas de qualquer livro de auto-ajuda... ainda assim podem ser usadas com este fim, se preferir. Não quero aqui, de maneira alguma, condenar este tipo de bibliografia - pelo contrário. Muitas vezes a percepção de quem vive para compreender as almas pode nos ser útil, já que o nosso tempo é curto (e louco) demais.
Só que o texto "
Encerrando Ciclos" - pai do trecho acima - vai bem além da mera intenção de vender cópias, ou ajudar pessoas desesperadas. O gênio que o escreveu vivia para a humanidade. "Pessoa" era o nome dele; Fernando Pessoa. Um nome místico para quem dialogava com almas e pessoas desconhecidas.

Pois bem. A rasgação para o ídolo literário já foi feita. Agora vem o "valor agregado" (trabalhar na Embrapa me rendeu algumas pecinhas no vocabulário):
Depois do almoço li meus e-mails. Fui surpreendida com uma mensagem de carinho de um amigo colecionador de piadas e vídeos pornográficos. O mais bonito foi ver que o e-mail era minimamente calculado: apenas eu e mais dois amigos fomos os destinatários. Como conteúdo, o tal texto de Pessoa.
Sei que hoje pode parecer comum o envio de mensagens de amor, amizade, carinho e esperança via internet. Afinal, é tão fácil dar um clique e fazer média de amigo verdadeiro... Mas comigo foi diferente.

Já na introdução do e-mail, antes do
"Encerrando Ciclos", cada linha escrita de qualquer jeito já transmitia a mensagem: vocês são aqueles para quem eu gostaria de ter criado este texto. Como é bom ouvir isso, sem que o outro tenha dito, ou mesmo escrito.

É fascinante poder sentir nos gestos - ou nos cliques - a importância dos encontros sinceros da vida.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

"A beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la - mas quem consegue descobre tudo."

Charles Chaplin

terça-feira, 27 de maio de 2008

Círculo de cores

Ninguém jamais imaginava assim. Quando ela deslizou, toda cor-de-rosa, pelo caminho que levava ao seu homem, nada além importava. As lágrimas derramadas, as fugas inventadas, as contas acumuladas. Tudo já se foi. É tão bonito quando a gente vê no hoje um porquê metafórico para os dias anteriores. É quase lógico; é circular.

Quatro vidas inclusas no mundo pela mulher cor-de-rosa. Vidas fortes e ricas são essas que, enquanto as vozes ecoavam canções vibrantes, se uniam para ver passar o seu berço esplêndido. Lágrimas ainda, sim, mas pela salada. A salada que leva orgulho, saudade, medo e uma essência de amor. O desabafo é a gosto. Se pedissem para um especialista da mente humana explicar o modo de preparo talvez ele deixasse a desejar. Mesmo que ele fosse metido a mestre cuca. As duas vidas mais antigas, sim. Essas sabiam como era feita a salada.

Quando foi hora do banho de pétalas brancas, a que bela cena os convidados assistiram! Para as duas vidas mais novas havia a alegria de quem ganha um novo presente, uma nova surpresa, um doce diferente. Para as duas mais antigas, a certeza de que a vida não é mesmo tão reta. A sensação de que a infância é mesmo uma página de cor diferente da página em que se está. Mas, afinal, a diversidade do livro é tão bonita...

Para a mulher cor-de-rosa... Ah! Para ela a vida recomeçava; o amor tinha mandado um torpedo dizendo: “Ei! Eu posso existir de novo, sim!”.

Como é adorável (e misterioso) esse livro circular.

domingo, 21 de outubro de 2007

"Quero nunca renunciar à liberdade deliciosa de me enganar"

Essa é a frase que me fez colocar uns óculos, esses dias. Para não me sentir a única com duas garrafas nos olhos - o que parece um tanto ridículo - resolvi iniciar o blog e pedir para que todo mundo tire daquela frase um pouquinho de delícia. Pois, então...bem-vindos às lentes.
É moda dizer que se tem os pés no chão. Pelo menos é o que eu ouço muito por aí! Realismo de forma - por que não - brutal em todos e em tudo. Tudo bem que manter os pezinhos bem apoiados não faz mal a ninguém...muito pelo contrário! Mas achar que, para isso, é necessário que todo o resto do corpo seja de pedra e cal, é demais. É preciso um pouco de auto-enganação, ora.
Quando um tal falou em se enganar quis dizer utopia, só que em palavras mais simples. É, utopia mesmo. Não apenas aquela que nos faz sonhar com o futuro ou almejar isso, aquilo, aquele. As minhas lentes garrafais traduzem essa utopia como aquela que também nos faz acreditar. E não...por favor, não pensem que isso se resume à religião - estaríamos, então, excluindo os ateus de qualquer enganação.
A utopia de que falo aqui é uma tal que nos faz conservar a infância, pegando carona com ela, certas vezes. Sabe aquele brilho que criança põe em tudo o que vê? Presumo que muitos crescidinhos ficam sem estoque de brilho depois que descobrem que Papai Noel é pura imaginação. Cuidando para não usar demais e ofuscar a realidade, todos precisam de um pouco dessa luz nos olhos, sim, caso as lentes não prestem. A auto-enganação pode ser a única forma de a gente ver o mundo com alguns políticos de boa fé e pessoas altruístas de verdade. E não digo aqui com ironia!
Fico realmente exausta quando vejo gente que adora espalhar teorias desmitifcadoras por tudo quanto é lado.
Agora, tirando os olhos do lado político-social e viajando pra algo mais infantil, mas não menos importante: os desenhos animados. Quem nunca ouviu falar que os smurfs eram, na verdade, chapadinhos, assim como o Salsicha, amigo do Scooby? Há também quem diga que o Popeye foi só uma estratégia do governo norte-americano e que a Olívia estava a ponto de morrer por distúrbio alimentar. Ai, ai...que "conspiratólogos" mais chatos.
Tá. Eu sei que El Che não foi tão longe quanto quis ser livre para se enganar - até porque ele não teve acesso às contemporâneas teorias desmancha-prazeres - mas o princípio de que tudo precisa de um brilho, uma utopia que transcende o realismo bruto, isso sim se leva. Ponto. Pego carona com o comunista sonhador e digo: me recuso a perder a liberdade de dizer que os smurfs eram belos anõezinhos azuis e que o Salsicha era apenas um investigador com um medo infantil! E que os teóricos apocalípticos sirvam-se de lentes mais cintilantes.


sábado, 20 de outubro de 2007